Enchocolatada!

Vou confessar (e que minha filha não leia esse post): sou uma coelhinha da Páscoa empenhada. Levo minha missão, de comprar ovos, muito à sério. Em nome dessa tarefa, faço uma verdadeira peregrinação chocólatra. Visito várias chocolaterias, degusto os produtos (às vezes mais de uma vez), comparo a qualidade dos cacaus, enfim, mergulho de cabeça. As vendedoras logo percebem que tem na loja uma viciada e aproveitam minha fraqueza, para me estimular a conhecer novos ovos. Elas, assim como vocês, já perceberam que perto da Páscoa fico transtornada. Meu superego tira férias e eu faço a festa. Nem mesmo o eterno medo de engordar me detém. O prazer é mais forte. Minha censura só entra em jogo ao frear meus impulsos para não abocanhar os ovos da minha filha, que compro e estoco em casa dias antes do domingo. Torçam para que neste ano eu também consiga resistir a tentação e preserve, intacto, o kit Páscoa que comprei para ela. Que todos vocês tenham um delicioso recomeço.

Na sala de espera, o inesperado

Celular é uma peça curiosa, capaz de protagonizar cenas bizarras. Uma delas aconteceu bem ao meu lado, permitindo minha inserção num mundo que não era meu. Estava, eu, na sala de espera de um laboratório, folheando, tediosamente, uma revista de 2003. Eis que a loira ao meu lado – com uns 45 anos, gordinha e generosamente maquiada – começou a falar alto no celular. E me parece que era necessário porque a ouvinte dela, uma idosa, exigia volume máximo. E foi o que a loira fez, abastecendo a sonolenta plateia de emoção. Com a palavra, a loira: É Dona Dalva, aconteceu o pior. A sala de espera inteira, tensa, aguardando a revelação. O Miguelzinho foi preso e pego em flagrante. Preso, Dona Dalva! A essa altura, se alguém fazia qualquer outra coisa no local, interrompeu para se concentrar na “radionovela” que se desenvolvia. E, para alegria de todos, a loira continuo: pois é …. e bem na noite em que a mulher dele foi para a maternidade. É só a mulher dar uma trégua que o malandro sai roubando. Ohhh … A sala de espera inteira exclamava silenciosamente. Tinha gente que nem disfarçava o interesse e até tirou o fone de ouvido. E ela, vigorosamente, prosseguia: só falta agora a mulher sair da maternidade, com os dois bebês, e ir direto para o presídio. Gêmeos, Dona Dalva, gêmeos. Até que uma enfermeira chamou a loira para os exames, acabando cruelmente com a festa e devolvendo a plateia à mesmice e ao tédio. Eu pensava, admirada, como uma peça tão pequena, como o celular, provoca inadequação explosiva, misturando, desequilibradamente, o privado e o público, escancarando, sem constrangimento, as intimidades no centro da mesa.

100 anosssssss! Não???!!!

Na quarta, tem feira e é o acontecimento do bairro. Crianças, executivos, donas de casa, todos se encontram nas barracas de pastel, para almoçar. Eu não poderia deixar de incluir a minha filha nessa “confraternização fritada”, acostumá-la a espontaneidade desse evento e a sopa cultural – e social – que uma feira permite. Pois bem. Nessa quarta, chegamos cedo, e tivemos o privilégio de usar três banquinhos, o terceiro como providencial mesinha (um luxo, realmente um benefício para poucos). Ficamos muito confortáveis. Mas reparei que alguém, atrás de mim, não estava assim tão à vontade. Era uma senhora, sentada também num banquinho, que receava as conseqüências da movimentação pouco cuidadosa da minha filha (com certeza, já deveria ter levado alguns chutes e cutucões da minha pequena). Acionei a minha “antena” para que esse convívio transcorresse tranquilamente. Tudo indo bem, algumas casquinhas de pastel voando pelo ar, quando a velhinha tenta se levantar mas não consegue. Era a minha oportunidade de me ajudá-la. Com menos dificuldade do que imaginei, ela se levantou, colocou-se numa postura quase atlética e me falou contente: até que não estou tão mal para quem tem 100 anos, não é?! Eu quase cai para trás! Mudou minha perspectiva de vida. Eu que nunca quis ultrapassar os 80, e lá estava ela toda “serelepe”. Imediatamente mergulhei nas minhas elucubrações existenciais, quando sou interrompida pela minha filha, com uma pergunta de objetividade constrangedora: mãe, 100 anos e ainda está viva???? Falou isso entre a surpresa e a indignação. Ri  e respondi: não só viva, como ativa, fazendo feira, caminhando até a casa dela, magrinha, bem arrumada e bonita. Ficamos ali paradas, observando a velhinha caminhar, preenchidas com essa lição de vida, um belo presente para quem gosta de compartilhar e de fazer do convívio com o outro, um aprendizado constante. E viva a feira! Filha, rumo aos 100!

Uhmm … Guardanapo! Pra quê ????

Minha filha tem o excêntrico hábito de usar a blusa como guardanapo. É muito simples. Ela come e, sentindo qualquer incômodo nos lábios, puxa a camiseta e limpa tudo com perfeição. Ela acha supernormal chegar na escola com o cardápio todo registrado na camiseta: molho de macarrão, lasquinhas de peixe, grão de feijão, fio de couve, e de sobremesa??? Borrões de mouse de chocolate! Que beleza, a falta de higiene não deixa de ser um documento fiel da dieta dela. Agora, bom mesmo é quando ela faz isso com o vestido e ainda no restaurante. Levanta a barra da saia e manda ver. Ficam a mostra pernocas, calcinha, bumbum, sem nenhum “isquinho” de constrangimento (isso ela deixa para a mãe que tenta, aflita, puxar a roupa dela para baixo). E quando eu der uma bronca definitiva sobre o assunto, não vou me surpreender se ela disser que é mais ecológico, afinal, não podemos reciclar o guardanapo sujo, enquanto a blusa, é só lavar e tá tudo certo. Eta geraçãozinha da peste!

Prefiro calotes a culotes

Quando a minha filha fala “maaãe!!!!”, num tom musical pensativo, já sei que a cabeça dela está em plena produção “periculosa” e que vem bomba pela frente. Acertei em cheio. Veja a situação: eu estava pagando uma conta no banco e ela perguntou alto: mãe, você já nasceu com calote? Ela quis dizer, claro, CULOTE.  PENSO: eu bem que preferia ter nascido dando ou recebendo calotes a ter culotes. Mas na hora da criação, não fui consultada e vim ao mundo assim, com duas bolas de boliche nas laterais. Bolas, estas, tão resistentes quando as baratas, que não desistem fácil da briga, e não desaparecem mesmo diante das medidas mortais. Eu e a minha filha precisávamos ter uma conversa de mulher para mulher sobre essa herança maldita, que graças, parou em mim, e não passou para ela. Mas não precisava ser no banco, com uma fila de 22 pessoas esperando ansiosamente pela minha resposta. RESPONDO: filha, a mamãe já nasceu com culotes sim. Inclusive, a vovó conta que ao colocar a fralda em mim, tinha que puxar as laterais para cima, com intuito de não apertar as gordurinhas. Fica tranqüila que essas bolotas não surgem assim de repente, ao longo da vida. Ou você nasce com elas, ou está livre dessa “anomalia estética”para sempre. Depois do discurso, a vi respirar aliviada, como quem diz: ufa, escapei desta!

Direto ao ponto

Uma amiga me contou que na época em que estava escrevendo uma tese, o filho dela desenvolveu uma relação de rivalidade com o computador. Assim, que ele ouvia aquela musiquinha que anuncia que a máquina ligou, ele já começava a reclamar: mãe, outra vez no computador . . .  Desliga vai ! Na esperança de separá-la do dito cujo, ele se lançava a estripulias ousadas como: esconder o mouse, botar fita adesiva no teclado, virar cambalhota no pé da mãe, sair colando modes pelo escritório  etc … Até que um dia, após tentar conversar com a mãe enquanto ela digitava, ele se irritou e tomou uma decisão radical: puxou o fio da tomada e desligou o computador. Enfim, ele conquistou o tão desejado olhar da mãe. E assim vão as teses, e ficam os filhos (e suas intensas manifestações de amor).

Elemento surpresa

Desde cedo desenvolvi um talento muito peculiar e absolutamente inútil: encontrar itens não comestíveis nas comidas. Comecei de forma glamourosa. Encontrei um prego num pão de mel natureba (o que poderia ser mais natural?)! Diante dessa constatação, minha mãe, levada pelo bom senso, tentou me tranquilizar dizendo que só poderia ser um cravo. Não era. Tratava-se, sim, de um prego e ainda enferrujado. Um invejável debut, ninguém pode negar. Desde então a vida tem me brindado com inúmeras surpresas, de pequenos insetos aos clássicos fios de cabelo, que nunca faltaram no meu prato (inclusive cílios, muitos cílios). Com tantos anos de experiência, desenvolvi uma incrível familiaridade com esse tipo de evento, que já faz parte do meu dia a dia. Mas hoje algo me intrigou. Em cima da alcachofra da minha salada havia um pelo …. razoavelmente grosso, preto e curto (não era crespo, salve, salve). Fiquei olhando para ele e me passou pela cabeça que talvez fosse um fio de sobrancelha e não um cílio. Veja só como a vida é maravilhosa e múltipla, sempre nos surpreendendo. Esses intrusos ainda me pregam peças, dissimulando sua origem. Será que por todos esses anos tenho comido pelos de sobrancelhas e não cílios? Um assunto sério para se pensar. Afinal, somos o que comemos ou comemos o que somos?

O mais e o menos de todos nós

Nosso julgamento sobre nós mesmos nem sempre condiz com a realidade. É uma bússola duvidosa em se tratando de autoconhecimento. Muitas vezes enaltecemos nossos esforços e desvalorizamos nossas conquistas. Ou seja, achamos que deveríamos ter mais vitórias diante do empenho empreendido. Quer um exemplo simples? O livro “Comer para Emagrecer – Uma Filosofia Nutricional”, da Bia Rique, Editora Casa da Palavra, faz uma dura e real constatação: normalmente relatamos que comemos MENOS do que realmente comemos e acreditamos que fazemos MAIS exercícios físicos do que realmente fazemos. Veja o meu triste depoimento. Eu achava que fazia ginástica praticamente todos os dias (esse praticamente é um perigo). Na verdade, em semanas gloriosas, consigo ir à academia três vezes. Quanto a comer, sem comentários. Contabilizo o saudável e dou um jeito de esquecer os megacalóricos consumidos entre as refeições. Que vergonha! Onde vou parar com essa falta de autosinceridade? A pergunta é: em quais outras situações agimos assim? Superestimamos um lado e subestimamos outro, trazendo uma percepção altamente desequilibrada da realidade. Assim fica difícil atingir metas.

Franja: zona de risco!

Uma internauta me pergunta se afinal meu cabelo ficou tão ruim assim. Eu devo dizer que SIM. Sem melodramas nem autopiedade, a verdade é que ficou ridículo! Eu pareço o Justin Bieber pobre (vocês viram que uma mecha do cabelo dele foi vendida por 40 mil dólares? Vou repetir: 40 MIL DOLARES! Gente, o que é isso? Ser fã é ser deficiente mental? Tudo bem, o dinheiro foi para caridade, mas quem está precisando de ajuda, depois de uma compra dessas, é a apresentadora de tevê que deve ter sérios problemas de desvio de sensatez ). Bom, como eu ia dizendo, o que ocorreu comigo foi um desses casos de “matar ou morrer”: o erro foi feito na franja e aí não tem negociação nem escapatória. Se a coisa saiu do controle na comissão de frente, todo o resto está comprometido. Não há rabo-de-cavalo, fivela nem mesmo tiara que resolva. Você está fadada a ostentar um visual estapafúrdio, e ignorar definitivamente a cobertura da sua testa. Mas o que me mata mesmo é a instabilidade. Cada dia “acorda” de um jeito: às vezes ondas desengonçadas à direita, no outro dia um romântico ninho de passarinho bem centralizado, outras vezes, meu preferido, TODOS capilares espetados para cima. Ainda bem que é Carnaval! E que os fios cresçam rápido.

Intercâmbio na própria casa

Certa vez fiz um trabalho que propunha um novo tipo de intercâmbio, não para locais desenvolvidos e desejados como Inglaterra e Itália, mas para regiões pouco turísticas do próprio país. Alguns exemplos: passar 30 dias no interior de Goiás com uma família de artesões, viver algumas semanas em uma área rural, ou ainda compartilhar o dia a dia na casa de pescadores. Sempre com a intenção de mudar de condição social e econômica, que certamente remeteria a uma nova cultura, um novo modo de ver e viver. Bom, toda essa introdução para dizer que fiz isso dentro da minha própria casa, desbravando corajosamente as tarefas domésticas. Sempre muito ocupada com o meu trabalho, às vezes, titubeava quando me perguntavam onde ficavam os panos de chão. Tinha pouca ou nenhuma intimidade com essa outra esfera do “lar”. Eis que minha empregada foi embora e resolvi assumir tudo sozinha (num ato de revolta que só se faz sob fortes e insanas emoções). E o que dizer dessa experiência? Primeiro, emagreci 3 quilos (de tanto lavar, varrer, arrumar, andar pelos corredores), segundo, pude ensinar minha filha a importância de dar conta das próprias coisas (é bem provável que as empregas não existam mais quando ela for adulta) e terceiro: estou exausta! Mais importante do que tudo isso: vou automatizar minha casa, comprar máquinas que fazem tarefas domésticas, e incentivar a pesquisa para desenvolver robôs que assumam a administração do lar. Meninas, se alguém tem alguma outra ideia, por favor, inspirem-me!

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